Doze por cento. Essa é a fração de mulheres entre todos os pesquisadores de inteligência artificial no mundo, segundo dados de 2026 compilados por WomenHack e SheAI. Apesar disso, as mulheres responsáveis por alguns dos avanços mais importantes da IA estão construindo startups bilionárias, redesenhando a forma como modelos aprendem e garantindo que a tecnologia sirva a toda a sociedade — não apenas a quem a programa.
Neste Dia das Mães, a Entercast apresenta um retrato das pesquisadoras, executivas e empreendedoras que estão moldando o futuro da inteligência artificial no Brasil e no mundo.
O número que não mente: a sub-representação ainda é real
Os dados são claros e persistentes. Segundo levantamentos de 2026 feitos pelo Women in Tech Network e pela interface-eu.org, mulheres ocupam apenas 26,7% das vagas de tecnologia no mundo. No campo específico de IA, a situação é ainda mais aguda: apenas 12% dos pesquisadores são mulheres, e elas figuram como primeiras autoras em somente 14% dos papers de IA publicados.
Na acadêmia, apenas 16% das posições de professora efetiva em cursos de IA são ocupadas por mulheres. Nas cinco maiores empresas de tecnologia — Google, Apple, Meta, Amazon e Microsoft — a média feminina no quadro geral de funcionários é de 31%, mas cai bastante quando se olha para os cargos de liderança técnica sênior.
Esses números não são apenas questão de equidade. São um problema técnico: IA desenvolvida por equipes homogêneas tende a reproduzir os viéses de quem a construiu. Quando mulheres lideram ou integram equipes de pesquisa, os modelos tendem a ser mais robustos, menos discriminatórios e mais aplicáveis ao mundo real.
As pioneiras globais que definiram o campo
Fei-Fei Li, conhecida como a “Madrinhaparaphrase da IA”, é talvez o nome mais central da história recente da inteligência artificial. Foi ela quem criou o ImageNet, o dataset que deflagrou a revolução do deep learning no início dos anos 2010. Em 2026, sua startup World Labs — focada em dotar a IA de inteligência espacial e compreensão do mundo 3D — captou US$ 1 bilhão em investimentos, atingindo valoração de US$ 5 bilhões, segundo a USA Today. Ela é também co-diretora do Instituto de IA Centrada no Humano de Stanford, onde defende que a tecnologia deve ser orientada pela dignidade humana, não pelo desempenho em benchmarks.
Mira Murati, ex-CTO da OpenAI, fundou o Thinking Machines Lab depois de deixar a empresa. Em 2026, sua nova venture captou um round seed de US$ 2 bilhões — o maior da história para uma rodada dessa etapa — e atingiu valoração de US$ 12 bilhões quase imediatamente, segundo múltiplas fontes do setor. Seu foco: modelos mais interpretáveis e adaptáveis, onde os usuários entendem e controlam melhor o que a IA faz.
Daphne Koller, co-fundadora do Coursera e hoje à frente da Insitro, usa IA para acelerar a descoberta de medicamentos — um dos campos onde o impacto prático da tecnologia é mais direto para a vida das pessoas.
Lisa Su, CEO da AMD, é a arquiteta por trás do repositionamento da empresa como potência em chips para IA. Sob sua liderança, a AMD tornou-se uma das principais alternativas à NVIDIA no mercado de GPUs para treinamento de modelos.
Brasileiras construindo o futuro da IA
O Brasil também tem suas protagonistas, mesmo com muito espaço ainda a conquistar.
Gabriela de Queiroz, diretora de IA na Microsoft for Startups, é a fundadora da AI Inclusive e do R-Ladies — iniciativas que já ajudaram milhares de mulheres a entrar na área de dados e machine learning no Brasil e em outros países. Seu trabalho é simultaneamente técnico e estrutural: ela não apenas programa, mas reconstrói os caminhos de entrada na profissão.
Cíntia Barcelos lidera desde 2024 toda a área de tecnologia do Bradesco como CTO, à frente de infraestrutura, cibersegurança, dados e IA em um dos maiores bancos da América Latina. É uma das executivas de tecnologia mais influentes do país.
Eliane Collins, doutora em inteligência artificial e engenharia da computação, lidera pesquisas na EMBRAPII em Manaus sobre qualidade de sistemas de IA para dispositivos móveis, coordenando uma equipe onde metade é composta por mulheres.
Meninas brasileiras no Technovation Girls 2026 usaram IA para criar aplicações voltadas ao combate à violência doméstica, ao combate à desinformação e ao acesso à saúde em áreas remotas do país, segundo levantamento do ESG Inside. São as próximas pesquisadoras e fundadoras de tecnologia do Brasil.
Diversidade na IA não é pauta de RH — é questão técnica
Quando equipes de IA são demograficamente homogêneas, o modelo aprende com um recorte estreito da realidade humana. Sistemas de reconhecimento facial com taxa de erro mais alta para mulheres negras, assistentes que reproduzem padrões de gênero em profissões — esses não são problemas de intenção, mas de composição das equipes e dos dados.
Empresasque querem construir produtos de IA confiáveis e que funcionem para toda a base de clientes têm um incentivo direto para diversificar seus times técnicos. Não é caridade — é qualidade de engenharia.
O que sua empresa pode fazer agora
- Avalie a composição do seu time de IA. Se ele é totalmente ou majoritariamente masculino, você está perdendo perspectivas que afetam a qualidade dos seus modelos e produtos.
- Apoie iniciativas como AI Inclusive e R-Ladies. Conectar mulheres da sua empresa a essas redes amplia o pipeline de talentos e fortalece a comunidade.
- Inclua critérios de diversidade em auditorias de IA. Quando você avalia seus modelos, pergunte: ele funciona igualmente bem para todos os perfis de usuário?
A história da IA foi escrita por mulheres desde o começo — de Ada Lovelace, a primeira programadora da história, até Fei-Fei Li e Mira Murati, que estão definindo o campo hoje. Reconhecer esse legado neste Dia das Mães é também um lembrete de que tecnologia mais diversa é tecnologia melhor. A Entercast acompanha esse movimento e vai continuar trazendo as vozes e histórias que estão moldando a IA no Brasil e no mundo. Siga-nos para não perder as próximas análises.
Esta matéria foi publicada em 10 de maio de 2026. Siga a Entercast para não perder as próximas atualizações.