O Departamento de Estado dos EUA enviou, na semana passada, uma carta a 35 países avisando que participar do bloco de cooperação em IA liderado pela China é "incompatível" com continuar na iniciativa americana Pax Silica. O Brasil não está entre os 35 países que recebem a carta — porque, como mostramos aqui em julho, o país já tinha optado pelo lado chinês, sem nunca ter assinado o pacto americano.
O que mudou
Segundo o ITIF, o TheNextWeb e a CryptoBriefing, a carta do Departamento de Estado formaliza um ultimato: países que aderirem à WAICO (World AI Cooperation Organization, organização de Xangai lançada em julho, com 29 membros fundadores incluindo Brasil, Rússia e África do Sul) arriscam perder acesso a coinvestimento em cadeia de suprimento de chips dentro do Pax Silica, iniciativa que reúne aliados dos EUA como Japão, Austrália, Coreia do Sul e Reino Unido em torno de minerais, chips e infraestrutura de computação. O mecanismo de pressão não é só diplomático: os EUA já mantêm controles de exportação de semicondutores e chips de IA desde 2018, endurecidos de forma significativa em 2025. O Cazaquistão é hoje o único país que aparece nas duas listas — um sinal de quão difícil está ficando tentar equilibrar os dois lados.
Por que isso importa
A divergência entre os dois blocos não é só retórica. A WAICO oferece participação aberta, sem teste de valores ou tipo de regime para entrar, modelos de IA de peso aberto chineses como alternativa à pilha de computação liderada pelos EUA, e um framework de ética de IA alinhado a padrões chineses, não à OCDE, à AI Act europeia ou ao Processo de Hiroshima do G7. O Pax Silica, por outro lado, controla justamente a pilha física — minerais, chips, infraestrutura — usando investimento compartilhado e controle de exportação coordenado como instrumento de alinhamento. Isso significa que a divisão geopolítica pode, na prática, virar divisão de infraestrutura: quem tem acesso a qual chip, qual nuvem, qual modelo.
O impacto para o Brasil
O Brasil já sinalizou sua posição ao entrar na WAICO em julho, mas isso não elimina a dependência real que empresas brasileiras têm da cadeia de suprimento liderada pelos EUA — GPUs Nvidia, provedores de nuvem americanos, boa parte dos modelos de fronteira que já cobrimos aqui. A pergunta prática para quem lidera adoção de IA no Brasil não é "de que lado o país está", mas: minha empresa está construindo dependência de infraestrutura de um único bloco geopolítico, sem plano de contingência caso o acesso mude? O exemplo do Cazaquistão mostra que tentar ficar nos dois lados é possível, mas cada vez mais raro e mais caro.
Leitura da Entercast
Já tratamos aqui de risco de fornecedor em nível de empresa — a compra da Cursor pela SpaceX, o reajuste de preço da DeepSeek. A disputa Pax Silica–WAICO eleva esse mesmo risco para o nível geopolítico: a infraestrutura de IA que sua empresa usa hoje pode ficar sujeita a decisão de governo, não só de fornecedor. Isso não pede alarme nem migração imediata — pede mapear, com a mesma disciplina que já recomendamos para risco de fornecedor, quanto da operação de IA da empresa depende de uma única cadeia de suprimento geopolítica, e ter, no mínimo, clareza sobre o que muda se esse acesso ficar mais restrito.